Células-tronco do dente de leite: Uma conversa com o pediatra

O pediatra Prof. Dr. José Martins Filho escreveu um artigo especial para os pais que têm dúvidas sobre as células-tronco do dente de leite. Confira o artigo na íntegra:

 

A medicina avança sempre tão rápido que às vezes pensamos que estamos falando de coisas impossíveis de serem realizadas. Na área de Pediatria, cada vez mais aparecem novas pesquisas e novos avanços acontecem.

Surpreendentemente, muitas dessas inovações podem ficar muito tempo “hibernando” antes de caírem no conhecimento do médico que atua no combate contra as doenças. E pior do que isso, as famílias, os seres humanos para quem esses avanços são dirigidos, são os últimos a saberem.

A biologia celular, a imunologia e a genética estão entre as áreas do conhecimento médico que têm apresentado uma velocidade acelerada nos últimos tempos com novidades que até bem pouco, nos pareceriam utopias irrealizáveis.

Entre esses avanços das últimas pesquisas, se encontra o conhecimento e a investigação na área das células-tronco. Em particular, aquelas que provem dos dentes de leite colhidos ainda vivos (antes de caírem) das crianças que começam a perder a primeira dentição. A chamada dentição decídua ou “dentes de leite”.

Para conversar com vocês sobre este assunto é que escrevo este artigo. Precisamos conhecer essas pesquisas mais recentes, que prometem revolucionar os tratamentos e a cura de algumas doenças. Principalmente quando pensamos nas chamadas células-tronco mesenquimais provenientes da polpa dos dentes de leite das crianças.

 

A utilização dessas células num futuro bem próximo vai mudar a perspectiva de muitas doenças que atualmente consideramos difíceis de resolver ou curar.

Elas são chamadas multipotentes, porque tem a capacidade de se desenvolver em outras células, originadas dela, quando entram em contato com tecidos que queremos tratar. Parece incrível? Pois é…

Já há algum tempo, as pessoas foram estimuladas a guardar o cordão umbilical, no momento do parto, para aproveitar no futuro essas células aí existentes para cura de doenças graves, como a leucemia. No entanto, na maioria das vezes, as células aproveitadas são as chamas hematopoiéticas, que se transformam em todas as células sanguíneas.

Essas células são diferentes das células mesenquimais que estão nas polpas dentárias das crianças. Como explicado acima, elas se transformam em outros tecidos e teoricamente, como vistos nas pesquisas, têm outras propriedades regenerativas de tecidos.

Estas células-tronco estão sendo usadas para corrigir problemas sérios na infância e mesmo na idade adulta e se preservadas, podem significar um auxílio muito importante para curar doenças para o resto da vida.

Hoje nós dispomos de técnicas bem apuradas. Em alguns laboratórios altamente especializados, é possível tratar essas células e conservá-las para o resto da vida em temperaturas muito baixas (de -196 graus Celsius) em nitrogênio líquido.

Vale muito a pena conhecer o procedimento e a técnica. Se os pais decidirem conservar essas células, devem procurar a orientação desses laboratórios, escolher um dentista de confiança que vai retirar os dentes prestes a caírem. Vale enfatizar que tem que ser antes de que eles caiam, porque se eles caírem e as células estiverem mortas, não adianta.

Por isso é preciso retirar esses dentes na idade entre 6 e 12 anos no máximo, e com uma técnica especial. O dente é então enviado para o laboratório que irá fazer todos os procedimentos para a preservação dessas células, que poderão ser usadas para o resto da vida.

 

Em que as células-tronco poderão ser usadas?

É incrível o que a literatura médica nos mostra nas pesquisas que estão sendo realizadas em todo o mundo. Desde a regeneração de órgãos vitais, fígado e outros, regeneração óssea, ou mesmo algumas pesquisas entrando no campo da utilização em doenças do sistema nervoso, etc.

Por esse motivo, para os pais que puderem arcar com as condições econômicas, que são muito pequenas em relação a possibilidades futuras de utilização dessa técnica, devem procurar conhecer melhor os laboratórios. São poucos que começam a trabalhar selecionando, reservando e conservando essas células para que possam ser usadas para o resto da vida.

Alguns trabalhos mostram avanços interessantíssimos também na área da cardiologia, com a possibilidade de tratamento de afecções importantes, como o próprio infarto do miocárdio.

 

Uma pergunta importante que eu recebi de alguns clientes e pessoas interessadas é sobre a necessidade de se fazer essa reserva se antes já tiverem sido feitas as coletas de cordão umbilical.

Na verdade, no envoltório, no tecido do cordão também existem células-tronco mesenquimais. Mas o que mais se usa do cordão são as células-tronco hematopoiéticas. Seria muito bom se você já tiver reservado o cordão, perguntar quais as células que poderá utilizar. O médico e o laboratório que esteja por ventura preservando essas células poderão lhe ajudar a decidir isso.

Na maioria das vezes, as células do cordão são mais usadas para tratamento de doenças hematológicas, como as leucemias. Mas, muitas vezes a genética infelizmente nos mostra que as células do próprio indivíduo não servem para ele, porque já teriam as características genéticas da doença. Assim, é preciso pensar quão interessante nesses casos é melhor contar com um banco de células-tronco de cordão público, com maior diversidade genética para usar.

 

Como este é o primeiro artigo de uma série que pretendo ir escrevendo para conhecimento dos não especialistas, é bom falar dos cuidados antes de entrar num projeto desse tipo.

É preciso um bom exame prévio da criança. É importante se descartar a possibilidade de algumas enfermidades que, se presentes, impedem o uso das células-tronco. E claro, dirigir-se a um laboratório que faça esse tipo de procedimento para receber todas as orientações necessárias que serão dadas às famílias, ao dentista escolhido e aos médicos que por ventura estiverem seguindo o seu filho ou a sua família.

 

 

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